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Do bullying intelectual

por pedro pereira neto, em 30.12.13

Há pessoas a quem o benefício da dúvida parece já demasiado lisonjeiro. E a paciência, essa virtude benigna que deve subjazer-lhe, não é infinitamente elástica.

Vem tudo isto a propósito de algumas afimações que vou lendo, semeadas pelas redes sociais, exactamete da forma que Moreira de Sá há semanas descrevia. Segundo essas ilustres formas de propaganda, existe uma espécie mágica de "números da economia", segundo os quais o desemprego estaria a descer, o PIB estaria a crescer, as exportações estariam a subir, e a balança comercial seria excedentária como nunca na história de Portugal.

A primeira resposta que me ocorre a essas afirmações é, na realidade, uma pergunta: a pessoa injecta ou inala?

A segunda resposta que apetece dar presumo algum domínio mínimo de Geografia: "o senhor sabe que Portugal não é a Alemanha, certo? Eu sei que, na prática, em termos de economia, somos todos cada vez mais objecto da política financeira alemã, mas não lhe parece que está a ser demasiado explícito na sua adoração?"

Irrita-me isto porquê? Porque é desonesto. Porque é desonesto e porque preda a ignorância de demasiados portugueses e portuguesas. Porque é uma espécie de esperteza saloia que, como todas as expertezas saloias, tenta passar por inteligência à força da sua repetição e do silêncio daqueles que não toleram o bullying intelectual. Nunca fui muito bom a aturar essas coisas. Não estou a ficar melhor nisso com a idade.

Vamos por partes:

- desemprego a descer? A sério? Agora o desaparecimento de inscritos nos centros de emprego é "desemprego a descer"? Pessoas que deixam de procurar emprego em centros cujo nome é, em si, uma falácia? Que já nem chamados são? Nem o INE compra essa fantasia, e até costuma comprar algumas e facilitar outras, com timings providenciais;

- as exportações sobem? Muito interessante: quando a redução dos salários em Portugal torna o custo de produção mais baixo, e imputa ao intermediário e ao consumidor final valores mais baixos, é natural que as exportações subam; costuma funcionar no Bangladesh, mas até ao momento a intenção de nos equiparar a esse mercado pulsante de modernidade não foi (ainda) assumida explicitamente;

- balança comercial excedente? Não tendo a população dinheiro para importar, não obtendo as empresas crédito algum na banca que ajudaram também a salvar, e subindo as exportações à custa da redução da massa salarial, é natural que a balança mude, não? Se instituissemos a escravatura ainda melhorava mais.

Uma maioria do PSD já se apercebeu do logro. Ser enxovalhado publicamente pelas principais figuras da Economia no PSD deveria ser suficiente para estes arautos das "boas notícias" guardarem a viola no saco. Aparentemente, não. Há numa certa direita esta coisa curiosa: só acordam para a enchente quando a maré entra na cozinha. Aí, o que era radical seis meses antes passa a ser o discurso dominante. Mas com o prato vazio dos outros lidamos sempre bem. Enfim. "Viva Vichy", parece, na cabeça de alguns.

Não é de hoje que é descarado um certo colaboracionismo em algumas doutas figuras do jornalismo económico. Fazem parte do ambiente que reescreve permanentemente o presente, suspeito, com intenção implicita (e por vezes nem isso) de apresentar serviço para beneficio futuro. Até programas de governo alguns já escrevem. Deveriamos exportar esse filão, de tão talentoso.

E é grave que assim seja: privada de media que seja reflexo (ainda que reconstruído) da realidade, uma parte demasiado grande da cidadania fica completamente à mercê do discurso normativo do Governo (deste ou de outro). Considero a hipotese de oferecer alguns pins partidários a algumas dessas figuras: sempre era mais honesto.

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publicado às 02:32





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