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Faço notar que certas passagens deste manuscrito (encontrado num banco do Jardim da Estrela) revelaram-se de difícil descodificação, dada a caligrafia trémula e inconstante do seu autor. Não restou, portanto, outra solução senão "preencher certas palavras em função do contexto da narrativa.

  

E, por 1 momento, os 3 directores entre-olharam-se ... Teriam engolido o bluff...? Traguei eu em seco até que um rebentou a rir e - entre gargalhadas grasnadas - exclamou: "Homem!!! Onde é que você julga que está? Na Grécia?"

 

Caiu-me (quase) tudo! Como compreenderão, ainda hoje prefiro não me alongar muito sobre a minha entrada de leão e saída de cordeiro... Queria apenas que se soubesse que estaria disposto, para vincar um exemplo, fazer algo de verdadeiramente útil da minha vida e salvar o povo, de passar meia-dúzia de anos na prisão a comer iogurtes, ler livros de ficção científica e a fazer yoga. Talvez assim os costumes deixassem de ser tão brandos... 

 

Mas infelizmente, tal cenário revelou-se uma projecção excessivamente optimista. Diante de mim não tinha apenas os 3 directores da empresa, mas a santíssima trindade: Engenharia, Economia, Direito.

 

E o advogado, entre um ataque de bonomia, pouco depois acompanhado pelos sorrisos complacentes dos seus outros dois colegas directores, explicou-me as implicações jurídicas das minhas proclamadas formas de luta: "Meu amigo... a vida não é uma brincadeira! Estamos a falar dum homicídio qualificado em primeiro grau com um enquadramento legal de pena que vai dos 8 aos 25 anos. Mas como você despachava «meia-dúzia de filhos da puta, a começar por três», caiam-lhe logo em cima acusações de homicídio múltiplo e não apenas premeditado. Está a ver que nunca apanhava os 8?"

 

Já começava a ver tudo turvado,sim. "E uma vez preso - continuou o director advogado -  "você não iria mostrar arrependimento, pois não? Porque não se trataria duma cega vingança, duma súbita sede de sangue, dum acto tresloucado... Não! Pelo contrário teria você em consciência tomado um gesto extremo para «salvar o Povo» - expressão sua, não é assim?" - "Sim" ainda balbuciei - "Então, está a ver!" - exclamou triunfante: "Se você despachasse passionalmente a sua mulher à pancada, com um bom advogado talvez saísse ao fim de 2 anos; mas acusado dum crime político, mantendo a pose do justiceiro popular, não apanhava menos de 22, pois não? Ou pensa que iriam condoer-se de si durante o julgamento em Tribunal? Esqueça lá a opinião pública! A imprensa arrasava logo consigo e a Esquerda trataria de assobiar para o lado, repudiando a violência com os olhos postos nas próximas eleições. Não! Entre calculismos de ordem táctico-político e cristãs consciências chocadas, você não teria a mínima hipótese: nem com um camião de bons advogados (se os pudesse pagar...), quanto mais que depois de ter despachado exemplarmente "meia-dúzia", iriam querer fazer de si exemplo também!"

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publicado às 10:42





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