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O Expresso anda a brincar com a vida das pessoas. Ou melhor, uma tal de Maria Martins, jornalista do Expresso, apresenta-nos uma notícia verdadeiramente reveladora sobre os estágios não remunerados. Reveladora não pelo conteúdo inovador ou surpreendente do que escreve, mas sim pela estupidez com que usa um órgão de comunicação social para difundir um vil, absurdo e mal escrito texto de apelo às vantagens dos estágios não remunerados.

 

Diz a jornalista que devemos pensar duas vezes antes de rejeitar um estágio não remunerado. Diz que a experiência que vamos ganhar não tem preço e que submetermos-mos a um estágio não remunerado nos trará imensas vantagens para o nosso futuro. Vejamos algumas delas:

 

“Os directores, o departamento de recursos humanos, os colegas, e mesmo outros estagiários, são pessoas que não conheceria de outra forma e que vão ficar com uma opinião sobre si e sobre a forma como se dedica ao trabalho”

“Um estágio obriga-o a reorganizar o seu tempo, ensina-lhe que assiduidade e pontualidade não são conceitos vagos, e que servir cafés e fazer fotocópias não são um cliché das comédias de Hollywood.”

“O facto de estar a conciliar o curso com um estágio vai fazê-lo subir na consideração dos seus professores, dos seus pais e dos responsáveis da empresa”

“Revela vontade em aprender mais do que aquilo que lhe é ensinado na universidade e espírito de sacrifício para abdicar de tempos livros, e usar as poucas horas que lhe sobram entre as aulas e o estágio, para se dedicar ao estudo.”

“Este é o melhor cartão de visita que pode apresentar a uma empresa. Enquanto um currículo é uma carta em branco, um estágio permite à empresa perceber que tipo de pessoa tem à frente.”

“Ter de conciliar as aulas, o estudo, o estágio e as noitadas com os amigos, vai ajudá-lo a amadurecer e a sentir-se melhor preparado para enfrentar novos desafios no futuro. “

 

Cara jornalista,

 

Por muito baixo que seja este texto de propaganda mascarado de notícia, e por muito absurdos e vergonhosos que sejam os seus argumentos, queria-lhe dizer que não lhe desejo a mesma sorte que têm as milhares de pessoas que fazem trabalho gratuito para empresas que as usam para fazer trabalho que deveria ser remunerado e para baixar as condições de trabalho dos outros trabalhadores. Não desejo que você seja um objeto descartável que as empresas usam a pretexto daquilo a que você chama de “desenvolvimento de competências”, para depois a mandarem para olho da rua assim que o estágio acabe, e que outro estagiário se ofereça para fazer o mesmo trabalho que você oferece de forma gratuita. Não lhe desejo que você viva um dos mecanismos mais violento da escravatura moderna.  

 

Mas desejo-lhe uma coisa.

 

Deixe de envergonhar os bons profissionais que se empenham em fazer jornalismo de qualidade. Deixe de envergonhar uma democracia que é menos sólida quando tem os seus órgãos de comunicação social a servirem textos de propaganda mascarados de notícias. Deixe sobretudo de envergonhar um país que vive desesperado pelo desemprego, a precariedade, a emigração e para a qual a senhora sugere que vão trabalhar de borla. 

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publicado às 13:17


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