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Equivalências

por carlos carujo, em 07.03.14

Apesar do pontapé do assessor do PSD a um jornalista não ter tido equivalência a um espancamento, a manifestação dos polícias parece que teve equivalência a uma revolução. A matemática política Relvas impõe-se no vazio de pensamento.

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publicado às 16:04

A entrevista

por carlos carujo, em 28.02.14

Não bastava ter um currículo impecável, intermináveis anos de estudo e as melhores notas. Para conseguir o Cargo era preciso passar pelo ritual da entrevista.

Ali se encontrava, pois, o candidato sentado à frente do Diretor Máximo em pessoa. De várias formas ardilosas, este testava a sua capacidade de recitar o Credo.

Até que o Diretor Máximo disparou a pergunta derradeira: «até onde está disposto a ir pelo Credo e pela Instituição?»

O candidato não acusou minimamente a pressão e continuou no seu ritmo vagaroso: «faço qualquer coisa. Até já meti um país de rastos.»

O Diretor Máximo deixou que um sorriso mínimo se escapasse à sua expressão austera. Não terá sido por se ter surpreendido, até porque já sabia... Tínhamos Funcionário!

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publicado às 21:11

O biopoder de despedir

por carlos carujo, em 14.02.14

O governo decidiu avançar como primeiro critério para despedimento de trabalhadores a «avaliação de desempenho». Ao fazê-lo, faz uma escolha ideológica e programática. Quer aparentar que a avaliação é uma forma objectiva de julgar e de comparar. Mas não é. Alguém conseguirá ainda acreditar nisso? É, aliás, as mais das vezes o contrário: feita de objectivos difusos, a avaliação de desempenho torna-se o reino do amiguismo oculto e da promoção da subserviência reles.

Seja como for, generalizá-la é generalizar a chantagem. Este não é um critério entre outros ou um critério como poderiam ser outros. É o critério mais adequado à mentalidade de quem pensa que preencher grelhas e tabelas assegura uma evidência. É um critério que parece ocultar a sua natureza de poder brutal. É um critério normalizador e formador de subjectividades obedientes, dissuasor da luta por direitos sociais.

É uma forma de biopoder. José Gil, entre outros, procurou há bem pouco tempo os meandros pelos quais se produzem os processos de extração de mais-valia subjetiva: a avaliação é frequentemente uma forma de afirmar que nunca damos o suficiente à empresa, que nos devemos empenhar mais, que devemos moldar a nossa própria personalidade ao que ela dita. E é uma forma de sentir que essa adequação é sempre de menos. A homogeneização é diminuição.

A pseudo-técnica da grelha já era a cenoura para a promoção, agora é o pau para o despedimento. Entrenha-se mais na empresa e em cada um dos trabalhadores. Querem-nos domesticados.

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publicado às 16:41

Poema inconseguido

por carlos carujo, em 13.02.14

Inconsigo compreender a poesia política austeritária do medo.

Inconsigo ser desse medo. Só consigo sonhar inconseguir o medo.

A austeridade é o medo conseguido.

 

O empreendedorismo é a modalidade de conseguimento austeritário.

Inconsigo ser empreendedor. Só consigo ser aprendedor.

A austeridade é uma contradição inconseguida.

 

Dentro das possibilidades em que nos encerram, só há lugar para vidas inconseguidas.

Inconsigo viver assim. Só consigo viver consigo.

A austeridade inconseguirá destruir-nos a vida.

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publicado às 20:34

Golden Age

por carlos carujo, em 09.02.14

 

O PS propõe juntar às políticas de visto gold para investidores ou craques internacionais das ciências os tribunais gold para «investidores» estrangeiros. A ideia é oferecer resolução mais rápida de conflitos através de um «tribunal com uma competência especializada para apreciar os conflitos emergentes das relações contratuais onde está envolvido investimento estrangeiro».

Ao que se pode ler aqui e do ponto de vista de um leigo absoluto nestas matérias, a proposta não é nada clara.  Fica a ideia de uma trapalhada ad hoc «dependendo das verbas envolvidas, algo que seria definido consoante o contexto económico, por exemplo anualmente.» E fica a incerteza do âmbito de aplicação: os conflitos com outras empresas são claramente nomeados mas estaremos também a falar em conflitos com o Estado português ou com os trabalhadores? Como se garantem direitos processuais de defesa que impliquem tempo se o determinante é a pressa de resolução? É uma via verde ou implica mesmo o que parece: tribunais especiais que só julgam este tipo de casos? É recíproco ou unilateral, ou seja, se um/a trabalhador/a for despedido/a ilegalmente de uma destas empresas será também resolvido em prazo dourado ou limita-se a ser no que diz respeito aos interesses do «investidor»?

A via verde na justiça cria não só um regime de um país, dois sistemas mas, sobretudo, institui a desigualdade no direito ao acesso à justiça. E isto é, do ponto de vista democrático,inaceitável.

Com esta proposta, o PS entra imponderadamente na insana corrida louca ao ouro, cede à mitificação do investimento estrangeiro e dos/as investigadores/as estrangeiros e contribui para as simétricas respostas nacionalistas a troco da promessa de milhões em investimento e de empregos. Só que é preciso sublinhar que a política dourada é a que vende facilidades a alguns mantendo ou reforçando as dificuldades de todos. Os vistos dourados são a outra cara de Lampedusa, de uma Europa cúmplice das mortes de milhares de pessoas. Os vistos para craques cientistas são a outra cara da política de destruição da ciência indígena,da precariedade e do êxodo forçados de investigadores/as. Os tribunais dourados serão a outra cara de uma justiça injusta lenta e absolutamente desigual.

A idade do ouro neoliberal é a institucionalização da desigualdade em nome dos negócios. Começa como um visto, uma bolsa ou tribunal. Onde acabará?

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publicado às 16:42

Os vistos e os longe da vista

por carlos carujo, em 06.02.14

Visto gold (para ricos), vistos talento (para craques), visto pelas costas para imigrantes pobres e até portugas qualificados. A livre circulação tem os seus limites. É que para alguns não há talento que lhes valha…

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publicado às 22:42

André Freire é mais um dos cronistas que se junta à torrente de opinadores sobre a «desunião das esquerdas». A sua explicação parte da ideia de que o problema são as «elites desavindas» da «esquerda radical» que acabam por excluir do «sistema de tomada de decisão» os eleitores que «preferem claramente a unidade» como «demonstram sucessivos estudos ao longo do tempo».

O problema com esta teoria, para além de homogeneizar um campo político (o eleitorado do PCP é igual ao do BE ou de outros partidos?), é que a crítica a tal elitismo acaba por dar um retrato um pouco elitista das massas votantes que não exigiriam mais que uma vaga unidade e a redentora governamentabilidade, ambas sem políticas e sem conteúdos. Essas massas votariam consistentemente numa «esquerda radical» mas no fundo desejariam apenas que ela acabasse por ceder ao social-liberalismo.

A insistência na predisposição do eleitorado por uma aliança que incluiria necessariamente o PS acaba por ser um remake da teoria de que há um espaço político à esquerda do PS pronto a ser ocupado por quem se mostre mais ponderado que estas «elites radicais». O que torna curioso que, os cenários apresentados para uma possível solução para o beco sem saída desta desunião que aproveitariam mais diretamente este espaço (a vitória eleitoral de um «partido do entendimento» ou a cisão de esquerda no PS) se apresentam como quase impossíveis apostando-se noutro: a «reforma do sistema eleitoral que premiasse os partidos que cooperam para a formação dos governos». Dito de outra forma: reduzir a proporcionalidade, afunilar as possibilidades de eleição de pequenos partidos, criando um sistema à alemã ou francesa «um sistema misto (...), mas com duas voltas na componente uninominal». Quanto a isto creio que é preciso ser claro e escapar aos eufemismos: não se trata de «premiar» a cooperação mas de limitar possibilidades. Mas será que isso não é o caminho mais rápido para reforçar o binarismo das alternância sem alternativa? E convém também acrescentar a pergunta: nos países que se parece ter como modelos (França e Alemanha) o sistema eleitoral é mais justo? Foi por causa deste sistema que existiram as malogradas experiências de governo com verdes e PCF? Estas julgam-se agora como um sucesso?

Curioso é também que, apesar de se lançar o ónus do problema para cima dessas elites desavindas da esquerda radical, não deixa de se constatar o óbvio: «o PS também não ajuda para a concretização de alianças à esquerda (...)  porque sempre foi um dos partidos mais centristas da família socialista europeia» e «porque, apesar da devastação criada pelo Governo mais neoliberal de sempre em termos de desinvestimento na escola pública, de estrangulamento financeiro das universidades públicas, de desinvestimento e favorecimento na ciência, de dificultação do acesso à saúde, de cortes nas prestações sociais e nas remunerações de servidores públicos e reformados, etc., a preferência de alianças no PS continua a ser com a direita.» Só que, apesar de tudo isto, no momento de desbloquear o impasse à elite política social-liberal incrustada no carreirismo e submersa nos interesses dominantes não se exige nada. Cabe juntar mais questões: não sairia esta outra elite bem mais elitista claramente reforçada de uma reforma eleitoral que introduzisse círculos uninominais? Para que precisaria ela da esquerda se a pressão do voto útil num sistema a dois turnos como é proposto lhe é mais do que favorável?

Como já referi alhures, se parte da chave da questão da unidade está na discussão política e na questão do programa, outra parte não menos importante está na avaliação da natureza do social-liberalismo. Há várias hipóteses de leitura da situação que se agarram desesperadamente à ideia de que o oportunismo do Partido Socialista é uma oportunidade para os partidos à sua esquerda, ou seja, que se ameaçado e perante a escolha entre perder eleitorado fortemente para a sua esquerda e aliar-se governativamente a esta mesma esquerda o PS escolheria (por mero pragmatismo) a segunda alternativa e o que redundaria (?) numa governação à esquerda.

Creio que é um exercício especulativo ilusório e que ignora as diferenças entre a velha social-democracia reformista e osocial-liberalismo realmente existente desde a «terceira via». É também pôr de lado ostensivamente os vínculos que ligam esta opção ao donos do país, da Europa neoliberalizante e das finanças mundiais.

Para além do mais, os tempos excepcionais em que vivemos tendem a colocar-nos perante escolhas difíceis como as de memorandos, resgastes, austeridades light, submissão à finança internacional. E uma esquerda que abdicasse do que é para se manter à tona de um sistema eleitoral adverso afogar-se-ia nesse pântano social-liberal.

Tal como vários outros autores, existe no artigo de Freire um eclipse da estratégia, uma obliteração das políticas que realmente contam. Aqui este vazio é preenchido por outras contas que parecem de merceeiro: há 20% para se arrastar de A para B, de uma oposição supostamente estéril para uma governabilidade supostamente construtiva. Como se o eleitorado fosse fixo. Mas a perspetiva de André Freire também nos pode fazer pensar noutro cenário: tendo o mérito de nos relembrar quão politicamente relevante para os resultados é o sistema eleitoral sublinha a artificialidade da construção e pode mesmo sugerir que o caminho contrário ao proposto, um reforço forte da proporcionalidade, poderia ser um terramoto político...

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publicado às 22:32

O vanguardismo doença infantil do comunismo?

por carlos carujo, em 03.02.14

 

 

São José Almeida, no Público, propõe a sua justificação para o fracasso de uma coligação de esquerda nas europeias.

Haverá alguns pormaiores para descontar no seu texto antes de entrar na questão que interessa aqui.

Todo o artigo é construído à volta da ideia da «herança de Cunhal» e do «modelo organizativo político que tem como referência em Portugal o PCP, que passa pelo funcionamento de acordo com as regras do centralismo democrático ou próximas dele, e que vive da ideia de se constituir em partido de vanguarda revolucionária que conduzirá à emancipação libertadora do povo, os trabalhadores, os operários, consoante o léxico nas diferentes épocas.»

Ao definir-se assim a temática, escolhe-se a simplificação extrema: não se diferenciam práticas ou tradições organizativas no interior dos partidos da esquerda anticapitalista; reduz-se o todo a uma qualquer variação mínima de um cunhalismo (sem especificar se existe um modelo de partido propriamente cunhalista); não se enquadra minimanente em termos históricos a tradição leninista. Todos diferentes, estes partidos seriam, no fundo, todos iguais.

Clarifique-se que a acusação tem um alvo particular. O texto é, sobretudo, dirigido ao Bloco de Esquerda que seria culpado de viver ainda na galáxia cunhalista (e por isso ser incapaz de uma política de alianças não sectária).

O processo de intenções de descobrir um leninismo vanguardista escondido na política bloquista é, diga-se, recorrente nas análises sobre o BE. Desde a sua fundação que se escrutinaram minuciosamente textos e práticas na ânsia de encontrar discrepâncias entre uma suposta agenda pós-moderna e um protoleninismo. Ao menor caso, declaração desastrada de um dirigente ou erro político imaginado ou clamoroso, sempre houve alguém disposto a desvelar a sua causa profunda num perigoso estalinismo emperdernido por sob aquela brilhante camada de verniz cosmopolita e mediático.

O problema deste artigo passa também por pressupor intenções «vanguardistas» sem sequer se dedicar à tarefa de mostrar as fontes de onde deriva a conclusão. Bastaria levantar a suspeita sobre os partidos fundadores do Bloco e pouco mais. Ora, o BE tem um determinado tipo de funcionamento mas não tem uma teoria de partido consensualizada (e digo-o não como se isso fosse uma virtude).

Tampouco o artigo procura (talvez seja pedir-lhe demais para os seus propósitos e dimensão) justificar a existência dessas intenções «vanguardistas» através do funcionamento interno do partido. E, também aqui, não escrevo para justificar o Bloco: há que reconhecer problemas organizativos, tentar encontrar soluções, mudar. E há que identificar causas: estes problemas decorrem mais das estratificações em que incorrem as organizações tradicionais, da divisão tradicional do trabalho nas sociedades em que vivemos, dos perigos do centralismo político, da mediatização e da institucionalização entre outros fatores do que de um leninismo bloquista.

A tese de São José Almeida não se interessa pela história, pelos escritos ou pelas práticas desse vanguardismo (bloquista ou comunista). Faz uma psicanálise selvagem dos dirigentes políticos da esquerda que «mesmo que não o assumam e até nem disso tenham consciência» estarão condenados a determinado ponto de visto e um exercício de idealização que liga a questão organizativa e a política de alianças a um ideal de vanguardismo revolucionário utópico que guiaria estes partidos que se veriam como messias a guiar o rebanho.

Desconte-se, já agora, outro pormaior a este respeito: uma aceção confusa de frentismo. Escreve Almeida que «o vanguardismo político próprio das forças que bebem no modelo de acção política leninista concretizou-se historicamente no chamado "frentismo político", através de movimentos unitários de Frente Popular.» O que a autora chama de frentismo é a ideia de que a aliança política é a subjugação ao partido guia. Descontam-se assim as minudências da história: para falar na política de alianças comunista seria preciso ir à história do movimento comunista internacional para perceber diferentes formas de frentismo, das frentes populares de governo com o PS às teorias da social-democracia enquanto social-fascismo etc., para tomar o PCP como modelo de frentismo seria preciso situar as suas várias atitudes políticas antes e depois do 25 de Abril etc.

As conclusões do artigo serão relativamente desinteressantes para pensar a esquerda anticapitalista: que é impossível «organizar movimentos democráticos e transversais hoje em dia com forças que persistem em considerar-se como vanguardas e se vêem como as detentoras da via correcta e da verdadeira linha justa para a condução das massas» e a redução (outra vez idealista) ao binarismo entre o utopismo vanguardista a que responde o pragmatismo bom.

Mas sublinhe-se que, por debaixo de algumas formulações desinteressantes,  São José Almeida levanta um problema político profundamente interessante: como, nos dias que correm, organizar um partido (anticapitalista) o mais democrático possível não só enquanto instrumento de emancipação sonhada no futuro mas como ferramente de democratização permanente no presente; como construir um partido que não cave um fosso abissal entre «massas para conduzir» e «vanguarda política».

O ângulo de abordagem de Almeida parece não se dirigir tanto ao fosso dirigentes/dirigidos/as. Apesar de afirmar que a «vanguarda política surge desfasada na era da comunicação de massas» não equaciona aqui, por exemplo, o problema inverso nos partidos do sistema que se foram transformando de partidos de massas no período pós-revolucionário em partidos de espectadores que encenam consecutivamente a salvação da pátria a partir do rotatitivismo co-substanciado numa liderança unipessoal redentora.

Bem mais interessante do que as declarações de óbito do pensamento leninista é que continue, num contexto radicalmente diferente, a haver tudo por discutir sobre questões tradicionais como o que é um partido e como se deve organizar, se faz sentido essa ideia da vanguarda (ou o queria dizer quando tal foi escrito), o que é isso da consciência política e social e, sobretudo, como é possível resistir à barbárie.

 

 

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publicado às 22:54

A dona unidade e os seus dois papões

por carlos carujo, em 29.01.14

1- O grande papão do sectarismo

 

A propósito da unidade de esquerda, tenho visto várias referências à famosa sequência dos Monty Phyton da “Frente Popular da Judeia” e dos divisionistas. Daniel Oliveira no Expresso online é um dos que a utiliza. É interessante ver que a subtileza da utilização do exemplo dos Phyton, sugerindo as mais das vezes que o sectarismo são os outros (ora o sectarismo são sempre os outros, não é?), não consegue escapar da armadilha da caricatura. Mesmo se feita em nome da unidade, acaba-se a gritar divisionista para o vizinho do lado.

Um dos pontos a analisar antes de lançar uma acusação de sectarismo é se não estaremos a afunilar as nossas propostas de unidade de tal forma que o seu timing, o arco das alianças, a sua modalidade, os seus objetivos ou meios sejam colocados de forma absolutizada: a unidade ou é assim ou não será. Esta é portanto uma das armadilhas em que convém não cair ou corre-se o risco de se acabar a sugerir que todas as outras possibilidades não são “a unidade” a sério, aquela que é precisa, e, assim, acabar a sugerir que aos outros, por mais que digam o contrário, poderá ser colocado o rótulo de sectários, divisionistas ou irresponsáveis que não têm em conta o grave momento que vivemos.

Ora, se a unidade é fundamental há que ter alguma capacidade de integração do ponto de vista alheio ou então condenaremos perpetuamente os Monty Phyton à genialidade. As formas da unidade estão, assim, também elas em debate e a vontade de unidade não é um exclusivo de ninguém. Para começar este processo, que é o contrário de o enterrar ao primeiro contratempo, nada melhor do que a consciência das dificuldades.

Dificuldades sérias. Por isso, não basta o apelo de boa vontade à unidade. Claro que a boa vontade é necessária ao processo e os apelos também. Mas é preciso não cair noutra armadilha que nos conduziria a um beco sem saída: explicar a ausência de unidade por questões de egocentrismo, por acreditar que os outros, sempre eles bolas, não aceitam a via da unidade porque querem manter a sua quinta eleitoral, os seus pequenos privilégios, as suas migalhas do sistema.

Até porque somos todos humanos, dizem, convém não diabolizar uns e santificar outros: aos maus sectários não se contrapõem os bons unitários. Não há os dos interesses e os desinteressados. E se se pode suspeitar que uns fazem o que fazem porque querem manter o tal quintal, não se pode achar estranho que os outros rebatam que o discurso da unidade também poderá servir interesses pequenos como construir um pequeno espaço político próprio ou substituir as direções de um espaço político já existente.

Retóricas e interesses à parte, creio que é preciso afirmar que o problema central da inexistência de políticas de unidade à esquerda são os programas diferentes, os métodos políticos diferentes e os objetivos diferentes. E menorizar as diferenças em nome da angustiante urgência de alterar o rumo político do país não tem contribuído em nada para resolver a questão. É preciso, pois, partir do facto das diferenças vincadas e discuti-las aberta e aprofundadamente. Ter a capacidade de o fazer será dar uma alfinetada no grande papão a ver se o esvaziamos ao contrário de continuar a insuflá-lo de muitas maneiras.

 

 

2- Um pequeno papão para assustar o PS

 

 

O referido artigo do Daniel Oliveira é interessante porque procura responder a estas questões enquadrando a política unitária dentro de certos limites. Pode-se dizer que apresenta:

- um meio: a unidade é um partido (ou uma força sobretudo eleitoral);

- uma estratégia: a unidade é para conquistar eleitorado do PS assustando a sua direção;

- um objetivo: a unidade conduz a um governo de esquerda. Tenho para mim, precisamente, que cada um destes pontos é tudo menos evidente.

 

1- O meio “partido” e a intervenção eleitoral não são o único conteúdo possível da unidade de esquerda. Só assim será se acreditarmos exclusivamente na narrativa de que o que falta é uma força eleitoral que assuste o PS. Ora, de outro ponto de vista, pode-se contrapor que a unidade mais urgente é da mobilização e da luta social. Só ela pode contrapor aos poderes perenes do austeritarismo sendo assim uma força suficiente para meter medo não ao PS mas aos verdadeiros donos do país. Aliás, não haveria «governo de esquerda» capaz de aguentar as pressões a que seria sujeito sem essa força social mobilizada em permanência, sem a frente unida social.

 

2- A estratégia de entrar pelo eleitorado do PS dentro não deve ser absolutizada como a única possível desde um ponto de vista de esquerda. De um outro ponto de vista, a política de esquerda deve também dirigir-se aos «zangados da política», ou seja, todos/as os/as que dela são excluídos. A batalha contra-hegemónica nas camadas da população mais afetadas pela crise e mais sujeitas aos processos de despolitização é central e supõe metodologias, discursos e práticas diferentes.

 

3- O objetivo final da unidade não tem necessariamente de ser a participação de um partido num governo com o PS. A indisponibilidade do PS para tal ou a sua persistência no social-liberalismo são bastantes para inviabilizar tal projeto. Aliás, mantendo-nos no campo das possibilidades mais «moderadas», poderíamos colocar a hipótese de ser bem mais profícua a existência de uma esquerda parlamentar que se comprometa a viabilizar as propostas anti-austeridade e a contrariar as outras. Isto para não falarmos de tantas outras possibilidades de unidade que não estarão destinadas a limitar-se à política partidária e institucional porque vencer a austeridade não se pode limitar a ser só governar.

Parte da esquerda é influenciada por um fetichismo da governamentalidade como tentativa de contrariar uma suposta aversão juvenil ao poder (ou seja, como forma de contrariar um preconceito conservador). Não me parece que contrapor a vontade de governo a isto seja a melhor das obsessões para quem sabe que precisa de trabalhar muito para inverter a hegemonia do pensamento capitalista. Nem se passa a ser respeitável e credível face a um eleitorado só por se ter como projeto ser governo.

Para além do mais, um governo de esquerda, encontradas que sejam as pontes possíveis, teria de se confrontar com o paradoxo em que vivem as políticas sociais-democratas e de Estado de Bem-Estar nos tempos que correm: um governo minimamente de esquerda nesta correlação de forças é um desafio máximo à arquitetura da UE e do euro, uma afronta máxima à burguesia financeira internacional e aos donos do país que enriquecem com a crise.

Tal projeto de governo teria de responder à cabeça a questões bem espinhosas sobre dívidas, financiamentos, moeda, políticas de fundo, etc. As questões mais fraturantes.

Assim, junto com a conclusão de que um governo deste género seria um governo de combate social e de crise contra a crise, é preciso avançar outra: é impossível uma unidade mínima de esquerda com uma coligação com um partido de natureza social-liberal (será este o meu momento sectário?). E esperar que um partido mude de natureza só porque se espera vir a entrar-lhe pelo eleitorado como se este estivesse preso numa posição política imutável é um projeto mais que discutível e não será o único ponto de ancoragem possível de uma estratégia de unidade.

Um pequeno papão eleitoral, temo, não assustará ninguém e parece impotente para tantas tarefas que temos pela frente. O que assusta a burguesia que temos de vencer é a esperança e a consciência de classe dos/as trabalhadores/as. E o raio da unidade de esquerda que continua a ser urgente.

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publicado às 22:02

Notas de um quotidiano político suínizado

por carlos carujo, em 15.01.14

1- Tanto quanto sei, a única meta dos leitões é chegar a ser porco.

2- A política espetáculo austeritária é carnívora e chupa-nos até ao tutano.

3- É urgente resistir à direita que nos quer fazer viver e pensar como porcos.

 

 

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publicado às 18:32

3- Momento da contra-hegemonia: Lugares-comunistas contra as possibilidades de fascização

 

Depois de não ter concluído a tempo este escrito a três tempos, é preciso começar por reescrever e sumarizar alguns pontos das partes anteriores (aqui e aqui):

- a atual fase da disputa hegemónica centra-se no momento pós-troika;

- o pensamento dominante cavalga uma contradição acerca desse momento: nada poderá voltar a ser como dantes e tudo poderá regressar aos bons velhos tempos antes da troika;

- a ilusão pós-troika é uma peça provisória mas importante da discursividade oficial, para além dela, mesmo que se levantem outros horizontes de falsas esperanças de caráter ambivalente, o facto cru da austeridade permanente confronta-se com a possibilidade de esgotamento deste tipo de narrativas e o momento da força pode ser mais determinante do que o momento da hegemonia;

- a austeridade permanente estabelece-se como um estado de exceção permanente que se pode unir perigosamente às tecnologias e discursos do estado de exceção política;

- neste contexto, o discurso maioritário sobre a violência é enquadrado como o desenhar da ameaça de um “outro” desestabilizador e perigoso que mete em perigo todos os “esforços” das pessoas de bem;

- assim, é preciso relembrar o lugar-comum de esquerda: o discurso maioritário sobre a violência passa tanto por ligar algumas das possibilidades de resistência a esse “outro” violento como por impedir o reconhecimento das práticas governativas como violentas;

- a crise económica, o nível de violência sistémica, junto com a crise do sistema político, apresenta riscos de fascização;

- apresentar riscos de fascização não é sinónimo que dizer que existe um Salazar ao virar de cada esquina, pronto a entrar em jogo, mas reconhecer que se sentem micro-processos de fascização por baixo (as crises de grandes dimensões são terreno fértil para bodes expiatórios e populismos - os discursos genéricos e sem consequências sobre «os políticos» e «a corrupção» são disso sinal ) e por cima (o tal aumento da repressão sistémica de forma a manter a possibilidade de aplicação violência austeritária) e que a fascização é um processo multiforme e de ritmos diversos, não apenas um regime político acabado;

- o ponto aqui não é chegar à conclusão da necessária institucionalização das lutas políticas e sociais para escapar à narrativa da violência que lhe parece destinada ao menor incidente (até porque é impossível escapar da criação do inimigo violento);

- face a tudo isto a esquerda não creio que a esquerda tenha como tarefa inventar a roda mas voltar a alguns «lugares-comunistas».

 

Utilizo a terceira parte desta reflexão solta para voltar às últimas duas questões:

1- Em primeiro lugar, mais algumas palavras sobre a violência. Entretanto, os Gato Fedorento fizeram uma rábula cómica, também ela ambígua, sobre a “solução para a crise”. Cada um verá o que quiser na proposta de pagar a Steven Seagal para espancar os principais responsáveis políticos pela austeridade: de palhaçada sem sentido nenhum em particular, apenas para apanhar a onda, a criação consciente ou inconsciente de um escape para aliviar tensões (o que seria positivo do ponto de vista do sistema político) ou até a denúncia irónica do discurso da violência.

Pela minha parte, e só porque dá mais jeito para continuar a escrever isto, prefiro salientar a forma como a rábula se cruza não com o discurso dos profetas do óbvio mas com um certo senso comum “radical” que apela à violência. Deste ponto de vista, até se pode escolher: ou assumir que se trata do efeito Zé Povinho, de querer encarnar a voz do povo e dizer a verdade a brincar; ou, pelo contrário, pensar que se pode reduzir tudo a uma conservadora exposição do “ridículo”, uma desmontagem caricatural, como foi feita com o discurso de Marcelo Rebelo de Sousa sobre o aborto. Na segunda alternativa, a exposição do “ridículo” poderia atrever-se a constituir uma barragem à sua proliferação doravante.

Seja qual for a intenção que lhe colemos, interessa que é outro sinal importante da extensão da questão da violência que continua a circular nos discursos de rua e de café, nos fora mais “seletos” ou nos aproveitamentos cómicos. Interessa que a questão da violência não se deixa atropelar pelo número cómico. Antes pelo contrário. E, mais do que ridicularizar ou menorizar estes discursos, convém tomá-los a sério. São sinais e têm efeitos. Claro que é preciso ter cuidado e não tomá-los literalmente pelo seu valor facial: quem desabafa e alivia tensões, provavelmente em muitos casos repudiaria os atos concretos de violência, digo eu…

Mas a sua produção e reprodução continuada fora da esfera das narrativas e contra-narrativas da crise merece atenção. Não para os repudiar de forma simplista como ecos das botas cardadas que nos esperam e também não para os saudar de forma simplista como antecipações da “revolução que vem”. Para os compreender no seu caráter contraditório porque neles se radicaliza o afastamento da política tal como tem sido feita e que se expressava no abstencionismo dos zangados platonicamente com a política.

São discursos muitas vezes despolitizados, que se enganam no alvo (os políticos em geral ou então os meros gestores nacionais da crise), que não têm pensamento estratégico nenhum para além do “banano”, que até obscurecem as respostas possíveis, que ajudam a eclipsar o debate estratégico e colocam uma ética vaga de salvação nacional onde devia existir uma política profunda. São discurso reapropriáveis para os piores dos fins, fascizáveis (por cima e por baixo repita-se). Mas a esquerda tem de se atribuir a tarefa de dialogar com a forma como a ira espontânea responde à violência social que lhe é imposta. E, parece, entre as formas televisionadas e institucionalizadas de fazer política e esta ira cavou-se um abismo que não é uma piada.

 

2- Em segundo lugar, algumas breves linhas finais sobre outras facetas da resposta contra-hegemónica, sem grandes pretensões de constituir uma estratégia estruturada, a que chamei “lugares-comunistas”. Ou seja, um exercício de reinvenção dos lugares comuns políticos que ultrapasse a sua adoção estafada e repetida.

É um lugar-comum a referência ao 25 de Abril e às suas conquistas. É fundamental, para lutar defensivamente pela manutenção de direitos garantidos pelo Estado Social e pelas liberdades fundamentais, contra os fascismos possíveis e os austeritarismos reais, reinventar Abril. Tornar Abril um lugar-comunista implica ir além da mobilização de nostalgias em direção a um processo coletivo de subjetivação: é preciso ser Abril nas formas de resistência ao austeritarismo.

A consciência de classe foi um lugar-comum da esquerda. Ultimamente desaparecida do vocabulário político corrente, é tempo de reinventá-la contra as falsas unidades nacionais. Fazer Abril é direcionar-se este processo coletivo de subjetivação para a consciência de que somos trabalhadores que se opõem ao domínio capital. Para que possamos sonhar fazer mais do que resistir.

Talvez não seja habitualmente um lugar-comum da esquerda, mas não deixa de ser urgente: contra o discurso populista e simplista acerca dos políticos “todos iguais, todos corruptos” é preciso aquilo que Daniel Bensaïd chamava o “elogio da política profana”. Fazer Abril é defender a democracia, plural, partidária. É elogiar abertamente as complexidades da política e não a simplicidade da lambada.

Daí que o lugar-comum da defesa da necessidade de organização deva também ser reinventado. É precisa organização de médio e longo prazo, a defesa dos partidos e dos sindicatos e não o apelo à salvífica irrupção de violência, o mito inorgânico que resolveria os problemas de uma cartada.

É precisa organização e esforço persistente, menos individualidades egocêntricas. É precisa mesmo mais divisão e escolhas sobre estratégias.

 

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publicado às 01:38

E o burro sou eu?

por carlos carujo, em 29.11.13

 

 

Não terá sido Scolari que fez escola. Mas a metáfora do burro nacional ganha destaque no prestigiado New York Times. O burro seria o símbolo do interior português enquanto subsídio-dependente, à beira da extinção e ameaçado pelos cortes da austeridade. Vaqueiro, o Presidente de Junta socialista de Paradela, dá para esse peditório dizendo que os “subsídios nada trazem” e que “está toda a gente completamente dependente deles e portanto não há espírito de inovação e desejo de modernizar ou produzir mais”. Está a falar dos burros de Miranda, em vias de extinção porque perderam a sua função económica, mas lê-se no que se diz dos burros um discurso geral sobre os subsídios do Estado à preguiça e sobre os mitos da “inovação”.

Poderíamos bater no peito de forma nacionalista e gritar contra quem nos vê como burros improdutivos e ornamentais. Mas a questão que interessa é que a burrice das políticas não está em preservar uma espécie ameaçada, está na maneira como se despreza o interior do país enquanto estratégia de integração no capitalismo mundial e no discurso da subsidiodependência permite a agressão aos direitos mais básicos.

 

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publicado às 16:50

2- Momento da força num lugar-comum: violência é a austeridade.

 

 

O campo da austeridade necessitará em breve de outras narrativas para continuar o seu caminho de quebra do “contrato social”, ou seja do equilíbrio de forças relativamente estabilizado na Europa ocidental. A ilusão pós-troika é apenas um capítulo do estado de exceção permanente austeritário.

Só que a justificação ambivalente da exceção talvez permaneça, uma vez que está inscrita na própria forma do que é o “estado de exceção”: um momento em que a lei está em vigor e suspensa ou melhor está suspensa para supostamente se cumprir o seu suposto espírito que estaria ameaçado. Aliás, enquanto discurso de poder, a resposta austeritária à crise vem na sequência do discurso securitário do pós-11 de Setembro e da “guerra ao terrorismo” que se impuseram como estado de exceção permanente propondo a suspensão permanente de direitos cívicos e de garantias democráticas em nome da democracia. Da mesma forma, há agora uma suspensão de direitos sociais básicos que se eterniza para os garantir através da sua anulação. E o encontro entre estado de exceção político e estado de exceção social pode criar técnicas e tecnologias de poder terríveis.

É no contexto de um empobrecimento permanente e de um aumento ineludível das desigualdades sociais que a questão da violência entra em campo. Já estava muito presente nas conversas informais, entrou agora no discurso político mediático.

Nesta sua encarnação mediática, a violência não é uma tática de luta política nem um sonho de vingança simbólica. É uma ameaça que paira sobre a sociedade, que se reconhece como quase inevitável e que se deve prevenir. Descontados alguns lapsos, falar desta forma sobre violência não é legitimá-la mas constituir-se como o profeta que lança um aviso: “mudem de políticas ou a violência surgirá…”. Tão sábio quanto benevolente, o profeta lança este aviso dirigido aos seus pares ao mesmo tempo que refere esse “outro” social enquanto agente disponível para a violência. Esperto, procura fazer malabarismo com o medo da turba para benefício da sua agenda de resistência.

Só que se a próxima encarnação mediática da violência for perante qualquer caso concreto, este discurso dos profetas do óbvio não resistirá e talvez se revele “responsavelmente” temperado para se proteger da acusação de apologia da violência. Perante qualquer ato de violência originado na fome e no desespero serão os discursos papões para assustar “classes médias” que ocuparão todo o espaço público. Diz que o medo não é progressista e que o outro violento somos nós…

As núpcias entre estado de exceção social e estado de exceção política, a violência preventiva e repressiva para defender os cidadãos de bem, carregam em si possibilidades de novos fascismos. Como, aliás, também as odes apolíticas à violência contra os “políticos”, esses corruptos. Será preciso responder-lhes antecipando. Assim como é urgente responder sempre que a violência já é o quotidiano que nos foi imposto. Lugar-comum, claro. Mas um tempo de estado de exceção pode ser o tempo da coragem de voltar aos lugares comuns, de fazer um comunismo dos lugares comuns. Porque os lugares-comunistas podem ser uma arma.

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publicado às 21:31

Abril idade

por carlos carujo, em 25.11.13

Há 20 anos, estudantes em luta pelo ensino público, sentíamos a leveza dos bastões do cavaquismo. Hoje sentimos o peso da austeridade.

Há 20 anos, estudante em luta pelo ensino público, corria à frente dos bastões do cavaquismo. Hoje já nem consigo correr atrás do prejuízo.

Há 20 anos, estudantes em luta pelo ensino público, acabámos por perder. Hoje a derrota é um quotidiano em que se eclipsa o futuro.

Não é da nossa juventude reescrita pela nostalgia. Não é do peso do tempo ou da força das pancadas. Não é do significado político dessa derrota. Não é de um balanço. Não é da trajetória de uma geração entalada na precariedade e no desemprego. Não é de nada disso que me apetece escrever.

Apetece-me apenas dizer que demos luta. E não é para que conste. Apetece-me dizer que forjámos camaradagens. Apetece-me dizer que aprendemos, que aprendi. E não é para justificar que tenha valido a pena.

Apetece-me dizer uma idade como se fosse uma possibilidade e como se condensasse esperanças.

Há 20 anos dedicámos a nossa passagem pela universidade a lembrar que Abril tinha a nossa idade. Hoje ainda tem. E se na altura provámos um toque nada meigo de Novembro e se hoje vivemos um imenso Novembro austeritário, Abril continua a ter a nossa idade. Não há cavaquismo, bastonada, Novembro, troika, desemprego, que nos tire isso.

Há Abril.

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publicado às 19:47

1- Momento da hegemonia: Tudo será como dantes e nada será como dantes.

 

 

Tudo voltará a ser como dantes e nada poderá voltar a ser como dantes. Ou seja, não deveremos voltar a viver acima das nossas possibilidades mas voltaremos a viver da mesma maneira como vivíamos antes da crise. Nesta fase, a hegemonia austeritária enuncia-se enquanto ambiguidade e contradição.

A austeridade, dizem, é necessária para pagar as dívidas, para que a troika se vá embora do país e para “voltar aos mercados”. Suspenda-se o juízo crítico (se possível) sobre a natureza dessa dívida, sobre a quem a conta foi apresentada, sobre toda a construção discursiva do moralismo da dívida ou sobre o masoquismo da aceitação desse discurso. Não nos ocupemos do mito mediático desse regresso aos mecanismos obscuros do endividamento pelo lucro especulativo, um argumento pseudo-técnico demasiado fraco para fazer aceitar tão massiva dose de austeridade. Resta-nos a ilusão pós-troika.

A ilusão pós-troika é a política da indefinição de não afirmar o que ficará da austeridade depois da saída da troika no final deste “programa de ajustamento”. A vagueza desta ilusão situa-se algures entre a promessa de alívio insinuada e a ameaça não-dita de eternização da situação atual. A ilusão pós-troika pode ser vista como o mito comedido, o mito político do “do mal o menos”, o mito à medida do tempo das inevitabilidades. Mas é mais que tudo isto.

É também mais do que o oásis do “está tudo a correr como esperado” ou do “há claras melhorias na situação económica”. É diferente, aliás, do discurso dominante nas austeridadezinhas anteriores que costumavam utilizar esse instrumento da invenção do oásis. Não se trata de fazer acreditar no impossível presente (que já está tudo bem), nem tão só de fazer acreditar no possível futuro (que vai ficar tudo bem com o apertar de cinto que trará o crescimento). Não é só essa estafada apresentação do que se quer impor como permanente (a austeridade) como meio temporário para uma finalidade.

Trata-se de afirmar o deserto enquanto oásis e enquanto único futuro possível e desejável. De prometer, celebrando ao mesmo tempo essa promessa como impossível a partir do conjunto de pressupostos assumidos, o regresso ao passado maldito dos direitos sociais. Trata-se da política do paradoxo de breve prazo. Tudo voltará a ser como dantes e nada poderá voltar a ser como dantes.

Daí que implique um regime discursivo diferente, uma dialética brutal acoerente, uma estranha retórica para tempos estranhos.

A ilusão pós-troika afirma o indizível politicamente. Empobrecemos para sermos pobres permanentemente. Os mecanismos de transferência de riqueza do trabalho para o capital vão-se perpetuar. A austeridade é um estado de exceção permanente.

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publicado às 16:01




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