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Retomo* o post onde argumentei, a propósito da unidade da esquerda, que no aplanar das diferenças está a nossa fraqueza, não a nossa força e identifiquei algumas contradições que atravessam política partidária e os movimentos sociais. Abordo agora outras dessas contradições: o nacional e o internacional; o crescimento e a ecologia; o trabalho e a vida; a resistência e a transformação.

O nacional e o internacional
O Estado nacional foi, mesmo considerando as formas contraditórias que assumiu, o principal palco de confronto de disputa política dos ultimos dois séculos e nele foram até conseguidas conquistas importantes: desde direitos cívicos e políticos até direitos sociais, culturais e económicos muito se conseguiu consagrar nas leis fundamentais nacionais, especialmente quando embaladas por ondas revolucionárias – comparar o caso do processo constituinte do pós 25 de Abril e a transição democrática no Estado espanhol será bastante instrutivo para esta análise. Estas conquistas tiveram também cumplicidades e solidariedades além fronteiras, não sendo correcto afirmar que a escala internacional tenha estado ausente dessas disputas políticas. Mas a escala nacional era o ponto de partida e a principal base de soberania popular. Ainda será assim? Há sinais de mudança. Por exemplo, e olhando as mobilizações dos últimos anos, pela forma como a afirmação de um “nós” global – mesmo que expresso num vago “99%” - contra as elites financeiras veio dar um novo gás, e um novo sentido, às mobilizações em torno do Mediterrâneo. Ou ainda, se relembrarmos como a escala ibérica, de tonalidade europeia, foi um elemento crucial para o sucesso da Greve Geral de Novembro de 2012, que inicialmente foi convocada pela CGTP com o lema “Por um Portugal com Futuro”. É que, cada vez mais, vai-se percebendo que “isto está tudo está ligado”, que estamos extremamente interdependentes. Aquilo que nos afecta, afecta também outros povos no sul da Europa e a troika que nos oprime, oprime outros tantos povos. Mesmo que as principais ferramentas institucionais que podem fazer valer os nossos interesses (por exemplo, a constituição) estejam localizadas à escala nacional, talvez não resida aí a força e a imaginação política (usando os termos de Benedict Anderson), necessárias à uma transformação social que supere esta crise.

O crescimento e a ecologia
A emergência da resposta à(s) crise(s) ecológica(s) é talvez, o sinal mais óbvio do esgotamento das respostas soberanistas. No caso português, também porque a soberania alimentar foi aquela que primeiro perdemos com o processo de integração europeia. Não quero com isto dizer que os temas produção e distribuição alimentar não devam constituir área de reflexão e bandeira da esquerda. Pelo contrário: mais que nunca, a luta pela soberania alimentar é um elemento crucial da luta emancipatória. O problema é que esse é um elemento material vital que limita as possibilidades de saída à escala nacional. Mais ainda, coloca desafios importantes a uma imaginação intelectual sobre as alternativas. É verdade que a austeridade é desastrosa, especialmente do ponto de vista social, mas o crescimento económico não é a alternativa, sendo essencial colocar no centro de debate uma questão: os recursos naturais não são ilimitados.

O trabalho e a vida
Claro que é necessário criar emprego, de qualidade. Claro que é. Mas a nossa vida não se resume ao trabalho [e será que este tem de ser obrigação?] nem tão pouco residem aí todos os mecanismos de expropriação capitalista. Como argumenta David Harvey, as dinâmicas da exploração de classe não estão confinadas ao local de trabalho. Na verdade, o valor criado na produção pode ser recapturado   para classe capitalista pelos senhorios através da cobrança de rendas altas na habitação. Basta lembrar as razões da bolha imobiliária que fez rebentar a crise financeira de 2008 para perceber como esta lógica foi explorada pelo Capital. O problema é que de tanto querer afirmar a centralidade do trabalho, fomos deixando tudo o resto – em especial a habitação - cada vez mais entregue à retórica de consumo. E corremos o risco de cair na ratoeira da compulsão ao trabalho. Mas há forma de abordar conjuntamente lutas que aparentemente estão desligadas: aqui está um bom exemplo. Mas é preciso ir mais longe. Aprendi aqui que vivemos não apenas uma agudização do conflito capital-trabalho, mas igualmente do conflito capital-vida, no qual os riscos dos mercados são socializados ao mesmo tempo que os bens comuns (saúde, educação, água...) necessários a uma vida digna estão a ser privatizados. Não será por isso que, em tempos de crise, retóricas liberais e conservadoras tendem a aliar-se? Quando se precariza as condições de vida e diminui-se as possibilidades de uma vida digna, é o próprio conceito de vida que é alvo de disputa ideológica. E é claro que não devemos abrir mão dessa disputa.

A resistência e a transformação
O post já vai longo por isso resumo esta ideia num repto: queremos apenas resistir à austeridade ou também queremos transformar o mundo em que vivemos. Em qualquer dos casos, mas especialmente na segunda opção, o processo de "convergência de vontades" não se pode resumir a encontrar um denominador comum - que em muitos casos implica a exclusão de algumas dessas vontades - mas reconhecer que todos os contributos em debate ou em disputa (mas não necessariamente em competição), são importantes para a afirmação de alternativas. Como é que isso se faz? Não sei bem, mas suspeito que a velha dialéctica marxista pode ser uma ferramenta útil.

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publicado às 18:51


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